Se em outras áreas, Lula mudou de opinião ao assumir o governo, no caso do petróleo mantém sua coerência desde janeiro de 2002. Nem pensou em trocar o nome da estatal – ao contrário do antecessor – muito menos privatizá-la. Afastou liminarmente a possibilidade de compra de navios e plataformas no exterior – duas plataformas serão importadas, como exceção, por questão de urgência – e agora consolidou sua posição, ao impor um modelo de menor abertura. O modelo até agora vigente tinha a desvantagem de obrigar o Brasil a dividir lucros com estrangeiros – com a portuguesa Galp e a inglesa British no caso do campo de Tupi – mas isso, por outro lado, permitia redução de investimentos diretos. Em diversos casos, foram furados poços secos, com perdas, totais ou parciais, para estrangeiros.
Recentemente, esta coluna publicou estudo de Booz & Co., revelando que o pré-sal exigirá US$ 650 bilhões. E todos sabem que, no Brasil, jamais um investimento saiu por menos ou pelo valor previsto, sempre mais. O governo anuncia capitalização de US$ 50 bilhões para a estatal, o que será apenas um valor simbólico em relação aos grandes desafios. Capacidade técnica a estatal brasileira tem de sobra, mas certamente lhe faltarão pessoal e capital para gerenciar diretamente uma área tão expressiva. Os campos do pré-sal, além de profundos, estão a mais de 200km da costa e, por isso, pensa-se até em criar ilhas artificiais para redistribuir a produção no meio do mar. São desafios tecnológicos de grande porte.
Com certeza um erro foi a criação da Petro-Sal. Como a área de energia está entregue ao PMDB, o limite máximo de pessoal, fixado em 130 profissionais, em pouco tempo chegará a 260 ou 390 pessoas, tal a avidez de políticos de Brasília e do Maranhão. A Petrobras terá de contar com apoio externo, seja direta ou indiretamente. A empresa é enorme, mas a dimensão do pré-sal, somada a suas atividades rotineiras, representa uma tarefa quase impossível de ser executada de forma isolada. Além do mais, o modelo será submetido ao Congresso que, em fim de governo, muitas vezes se torna menos dependente do Executivo e, portanto, poderá impor novidades inesperadas ao modelo dos sonhos de Lula e Dilma.
Extra-oficial
De Recife (PE), informa-se que o Estaleiro Atlântico Sul, ao que parece, perdeu a primeira licitação. Afinal, desde que foi criado, ganhou todas as concorrências de que participou e, por isso, embora ainda sem estar com as instalações industriais prontas, conta com 15 obras, em valor superior a US$ 3 bilhões. A perda foi para produção de oito cascos de navios-plataforma licitados pela Petrobras.
Dados não oficiais indicam que a vitória coube à associação da brasileira Engevix com a sueca GVA, que pediu US$ 3,7 bilhões pela obra, contra US$ 4,2 bilhões do Atlântico Sul – que é uma parceria de Camargo Corrêa, Queiróz Galvão, PJMR e a coreana Samsung.
Nova estatal
Um fato que vai gerar muita polêmica, no pacote do pré-sal, é a criação da Petro-Sal. Afinal, em um país com quase 40 ministros – cada um com seus assessores, gabinetes, viagens etc. – preocupa a expansão da máquina pública. Um ex-diretor da Petrobras, Ildo Sauer, afirmou que as funções da nova estatal poderiam ser encampadas pela Agência Nacional do Petróleo (ANP).
Nunca é demais lembrar que, quando foi criada a ANP, o Ministério de Minas e Energia perdeu tarefas, mas nem por isso abriu mão de escritórios e pessoal: mais gente fazendo menos. Sauer destacou que ninguém sabe, com exatidão, qual o tamanho da nova área petrolífera: “É necessário saber o volume de recursos, a configuração geofísica e o possível plano de produção; se forem 100 bilhões de barris ou 300 bilhões de barris, ou 50 bilhões de barris, certamente a estratégia será diferente”, declarou. (Monitor Mercantil Digital/Coluna S. Barreto Motta, publicado dia 01.09.09)